Em uma bela manhã de outono, há aproximadamente três dias
atrás, me deparei com uma pequenina aranha construindo sua teia na sacada do
meu quarto. Estávamos Alex, Kelly e eu quando eu os chamei até o quarto para
ver aquela pequena, porém grandiosa obra minimalista daquele pequeno-grande
construtor. Alex também ficara impressionado diante de tão perfeita engenharia
da natureza. Kelly admirada tirou algumas fotos que se encontram aqui postadas.
Sei que parece exagerado uma vez que são corriqueiras ações da
natureza. Mas quantas vezes temos a oportunidade de sofrer estes insgths para a
contemplação ainda mais nos dias de hoje.
Foi então que percebi o quanto ela estava em uma posição privilegiada
em comparação a minha apesar de eu saber que ela morrerá daqui há alguns dias. Mas
ela não sabe disso e nem precisa saber. O que vale para ela é apenas o momento,
mesmo que este momento seja um momento que precede o outro momento e nada
acontecerá também no instante seguinte (Pelo menos até um inseto desavisado
cair em sua mortífera teia).
Eu é que me senti pequeno diante de sua grandiosidade. Provavelmente
se eu estivesse ocupado fora de casa não perceberia isto. Sou amaldiçoado por saber exatamente o meu
futuro mesmo que o presente seja um mistério para mim. Não conseguiria também suportar
tanto tempo de fome como ela suporta. Sinto-me infeliz por não ter sido o
escolhido de Gaia.
Então isso é permanência. Não a eternidade que tanto
buscamos para além da forma. É esse pequeno espaço que uma unidade biológica tem
de viver e buscar seu alimento antes de sucumbir a si mesma. É a memória que
permanece ali congelada como estas fotos e ao mesmo tempo é a memória do peixe
que apaga as angustias do futuro. É também a ausência do Eu em prol de algo maior: o Nós.
Nós, seres dentro de uma cadeia de sobrevivência. Na natureza não há tempo para
egoísmos salvaguardando o que é urgente para a unidade biológica.